Por: Diana Seabra e Ticas Graciosa, Let’s Bora! Let’s Grow Together!
Quando fomos desafiadas pela Fundação Pedro Queiroz Pereira para criar uma formação sobre saúde mental nas escolas dirigida aos professores, não hesitamos – e foi assim que nasceu o “Let’s Bora Talk About Saúde Mental nas Escolas!”. Já tínhamos a experiência de ir falar a escolas com os alunos e o impacto era imediato e visível. Sabíamos que o ensino escolar estava mal, com condições precárias para os professores, greves, turmas sem professores, muitos professores de baixa com burnout. Os resultados do estudo “A Voz dos Professores”, realizado pela Nova SBE e pela Universidade do Minho e impulsionado pela Fundação Pedro Queiroz Pereira, foram reveladores: a saúde mental e o bem-estar foram apontadas como as necessidades de intervenção mais urgentes na carreira docente, com cerca de 39% dos docentes a assinalarem como prioritários programas de prevenção do burnout, apoio na gestão do stress e medidas de conciliação trabalho-vida pessoal. No entanto, não estávamos preparadas para a realidade com que nos confrontámos nas duas escolas onde demos a formação, em Setúbal.
Professores exaustos, saturados, física e mentalmente desgastados. Num ambiente acolhedor, e indo sempre ao encontro das necessidades de cada grupo, recebemos muitas partilhas de quem já gostou da profissão mas que hoje se arrasta. Um amor à profissão e a missão de ensinar que os mantém à tona, que os vai salvando e motivando a continuar a dar aulas – mas que nem sempre e suficiente.
Atualmente, além de um programa desatualizado que não lhes permite ter criatividade, dos inúmeros processos burocráticos que têm de cumprir e da responsabilidade acrescida quando são diretores de turma, ainda têm de lidar com alunos cada vez mais desinteressados e com pais que surgem nas reuniões acompanhados de advogados. Em sala de aula, torna-se cada vez mais exigente fazerem- se respeitar e manter o ambiente propicio ao ensino. A gestão dos pais ocupa-lhes muito tempo e deixa marcas emocionais que se prolongam e transbordam para a vida pessoal.
O que os números nos dizem!
Depois da formação, pedimos aos professores que respondessem a um questionário. No que diz respeito ao conhecimento sobre saúde mental, após a formação, 96% dos participantes afirmaram conhecer melhor os fatores de risco para problemas de saúde mental e saber identificar sinais de stress profissional prolongado em si próprios. Quanto ao burnout e a depressão – temas que muitos desconheciam em profundidade -, os resultados foram ainda mais expressivos: 100% dos professores disseram distinguir melhor burnout de stress pontual, conhecer melhor os sinais e sintomas de ambas as condições, e ter mais consciência das suas consequências para a saúde e para a pratica profissional.
Nas estratégias de gestão emocional, 100% ficaram a conhecer melhor ferramentas aplicáveis ao contexto escolar, e 96% afirmaram conhecer melhor estratégias para prevenir o desgaste emocional ao longo da carreira. Quanto ao apoio aos colegas, 96% disseram que a formação os ajudou a identificar sinais de fragilidade emocional em colegas, e 96% sentiram ter mais conhecimento de estratégias de intervenção ou encaminhamento em situações de risco.
No impacto global 100% dos professores acreditam que formação nesta área pode melhorar o seu bem-estar profissional. A avaliação global da formação foi de 4,85 em 5, com 85% a classifica-la como Excelente.
Os números confirmam o que sentimos em sala. Mas são as palavras dos professores que verdadeiramente revelam o impacto:
“Tornar visível a perspetiva de carregarmos situações que não fomos nós que criámos e cuja resolução não depende de nós, é muito libertador.”
“Encontrei nesta formação um espaço de apoio e de suporte à minha pratica letiva.”
“A partilha de experiências e a tomada de consciência de que não tenho de ser perfeita na sala de aula.”
“As sessões foram muito pertinentes, atuais e úteis para a realidade escolar – foi um contributo relevante para a reflexão e para a prática.”
Percebemos que, neste percurso, os professores tinham pouco conhecimento sobre saúde mental, e foi extremamente importante transmitirmos exemplos práticos de identificação de burnout ou depressão – neles próprios e nos outros. A importância de cada um enquanto apoio para o colega do lado. Da mesma forma, demos estratégias para que não carreguem diariamente pesos que não conseguem aliviar, e para que os que são seus consigam ir sendo desfeitos, tornando o dia a dia progressivamente menos pesado.
O que pedem as escolas!
Foi também unanime – literalmente – o pedido de apoio psicológico dedicado aos professores: 100% dos participantes, sem exceção, consideram que seria benéfico ter um psicólogo para os apoiar. E nas respostas abertas, este apelo repete-se de formas diferentes, mas com a mesma urgência: um gabinete com psicólogo a funcionar uma vez por semana, grupos de partilha com confidencialidade garantida, sessões de follow-up, até um “SOS Professor” disponível online ou presencialmente. Vários professores acrescentam a necessidade de apoio jurídico, face a uma realidade onde muitos pais chegam as reuniões acompanhados de advogados.
Conhecemos pessoas incríveis, que sorriram mas também choraram muito – como se chora quando nos doi a alma. E é assim que sentimos que muitos professores vivem: com uma alma que se arrasta e um coração que a leva, porque tem nele o amor à profissão, o propósito de ensinar, o cuidado que sentem pelos alunos.
E foi isso que tentamos transmitir também aos alunos, na sessão que fizemos com eles: que podem ter um papel facilitador – ou não – e que devem ter consciência de que, quando provocam um professor já exausto, as consequências são sérias, os danos também, e não tem graça. Alertámos, com um testemunho real para o que pode acontecer quando alguém sofre de falta de saúde mental. E apelámos ao respeito pelos professores porque, no final, são os alunos o que ainda os motiva a estar em sala de aula.
Há muito a fazer nesta área – e urgente atuar na prevenção. Foram vários os professores que, nestas sessões, demonstraram sintomas de burnout sem que quem estava ao seu lado o tivesse detetado, por falta de conhecimento. O feedback que recebemos foi extraordinário: sentiram-se ouvidos, considerados, e reconheceram que a formação foi ao encontro do que realmente precisavam.
De louvar o trabalho da Fundação Pedro Queiroz Pereira, porque um pais sem saúde e sem ensino não evolui. Precisamos de professores saudáveis para termos alunos motivados.